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Tom Jobim, 20 anos de saudade

Projeto 20 Anos de Saudade faz um sobrevoo prático nas obras de Tom Jobim
JULIO MARIA – O ESTADO DE S. PAULO
17 de julho de 2014

 

Sob a curadoria do pianista Fábio Caramuru, shows na Caixa Cultural fazem homenagem ao maestro
Duas notas e um mundo inteiro se abria. Simples assim. Duas notas tocadas pelas mãos de um homem que se dizia pianista frustrado, mas que achava seus caminhos partindo de ideias pequenas que bem poderiam sair da brincadeira de uma criança. Menos era mais, dizia Tom Jobim, mas seu menos saía pela janela do quarto e crescia, tomava proporções sinfônicas, virava um gigante. E, quando voltava para suas mãos, no final da tarde, era de novo apenas duas notas.
Jobim morreu há 20 anos, quando seu coração parou durante uma angioplastia para o tratamento contra um câncer. Um repórter conseguiu falar com Chico Buarque na rua logo depois da notícia da morte. Ele estava desnorteado. “Eu não sei o que vai ser, não sei. Era para ele que eu fazia tudo.”

Caymmi e Tom. A criação da ‘simplicidade complexa’
O maestro partiu sem explicar direito que negócio era aquele de fazer música daquele tamanho com os sentimentos do menino que vê um passarinho. Deixou a tarefa para quem quisesse destrinchá-la. E a vez é do pianista Fábio Caramuru, curador do projeto 20 Anos de Saudade, um interessante sobrevoo bem mais prático do que teórico sobre a produção jobiniana.
Serão três shows e uma mesa de conversas a partir desta quinta-feira, 17, às 19h15, na Caixa Cultural. “A ideia foi mostrar a diversidade de seu legado”, diz Fábio. Ainda que o intuito não seja o didatismo, os recortes estão claros: a cantora Paula Morelenbaum e o violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum fazem a abertura, com a percussão de Marcelo Costa e o violão de Lula Galvão.
Paula e Jaques foram células da sonoridade de Jobim por dez anos, quando integraram a Banda Nova, ou Nova Banda, formada para gravar e acompanhar o maestro em shows. “A voz de Paula se adapta perfeitamente ao conceito musical de Jobim”, diz Fábio. Se é assim, Paula lembra, que seja natural. Ela nunca forçou uma interpretação quando esteve diante de Tom. “Isso é a sensibilidade que me faz ir por este ou aquele caminho. O fato de ter convivido com ele por dez anos, por sua vez, também me permitiu saber das coisas de que ele gostava.”
Jaques, a quem o compositor chamava de maestro, fala de Tom com um brilho na voz. “Eu não precisaria ter tocado com ele por dez anos para querer interpretar essas músicas. Estou impregnado de Jobim em cada poro.” Mas o fato é que ele tocou, e dez anos o fizeram saber como funcionava a cabeça de seu mestre. “Imagina, eu era uns 20 anos mais jovem do que ele, e podia respirar seu ar, ver como ele apertava a tecla de um piano, entender a paixão que ele tinha diante de sua própria música, dizendo ‘que maravilha!’”
No repertório dos Morelenbaums, estarão músicas como o Surfboard, Samba de Uma Nota Só, Brigas Nunca Mais, Águas de Março, O Grande Amor, Sabiá, Insensatez, Falando de Amor, Retrato em Branco e Preto e Wave.
Na sexta-feira, 18, será a vez de o violonista e arranjador Mario Adnet, seguido por piano, sax e flauta, mostrar a frente camerística desenvolvida por Jobim depois de seu início bossa-novista e, ainda antes disso, ligado aos sambas-canção. “Adnet tem essa vivência, compreende bem esse conceito mais sinfônico.”
E eis um dos maiores trunfos do maestro. “O menos era mais. Quando analisamos as composições, as harmonias que ele fazia, percebemos que não sobra e não falta nada, é impressionante. E você sente que sua origem era sempre o piano, embora ele dissesse ser um pianista limitado.”
Se não fosse pianista, mas sim violonista, por exemplo, a obra de Jobim seria a mesma? “Eu acho que não. A composição dele era claramente originada nas teclas do piano”, responde Fábio. Embora, faça-se justiça, Jobim tocasse violão muito bem. “E o fato de ser limitado, como ele dizia, talvez fosse sorte”, completa o pianista, refletindo sobre as melodias e as harmonias de acidentes e intervalos apenas necessários. Fábio e Marco Bernardo apresentam, sábado, 19, também a partir das 19h15, obras de Jobim com dois pianos. Será a vez de mostrar as águas que Jobim bebeu – sobretudo as de Radamés Gnatalli, Villa-Lobos, Debussy e Ravel, e a fonte que se tornou, evidente nas mãos de Egberto Gismonti (Baião Malandro), Cesar Camargo Mariano (Samambaia) e Gilberto Gil (Domingo no Parque). Às 20h30, haverá uma conversa com o público, estimulada pelos debatedores, o pesquisador Zuza Homem de Mello, os maestro Julio Medaglia e Gil Jardim, e o próprio Fábio Caramuru.
O domingo, 20, vai ficar com a cantora Alaíde Costa e o pianista Giba Estebez, representando os primórdios de Tom Jobim, uma era bem mais passageira do que aparenta a chamada bossa nova.

TOM JOBIM – 20 ANOS DE SAUDADE
Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, centro, tel. 3321-4400.
5ª a dom., 19h15. Grátis. Até 20/7.

Na Trilhas da Atlântida
Nas Trilhas da Atlântida | Gazeta do Povo | Curitiba
Show resgata canções de filmes da extinta companhia Atlântida nas vozes de
Maria Alcina, Vânia Bastos e do pianista Marco BernardoPublicado em 28/05/2013 | Rafael Rodrigues CostaAlexandre Barros/Divulgação / Vânia Bastos, Marco Bernardo e Maria Alcina cantam acompanhados por arranjos que emulam a sonoridade original das gravações

Começam a ser vendidos hoje, ao meio-dia, na bilheteria do Teatro da Caixa, os ingressos para o show Nas Trilhas da Atlântida, que resgata canções de filmes da companhia carioca, extinta em 1962, nas vozes de Maria Alcina, Vânia Bastos e Marco Bernardo.

As apresentações acontecem de quinta-feira a domingo. Acompanhados por acordeão, sopros, violinos, violoncelo, contrabaixo e percussão, além do piano de Bernardo, que assina todos os arranjos, o trio passa por músicas de compositores como Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Ary Barroso e Wilson Batista – a maioria integrante da trilha sonora de Aviso aos Navegantes (de Watson Macedo, 1951) –, que foram às telas nas vozes de atores como Oscarito e Eliana Macedo.

“São clássicos da música brasileira. Os filmes entravam também para divulgar os sucessos da época, já que a televisão ainda era pouco atuante”, explica o pianista Fábio Caramuru, diretor artístico e um dos idealizadores do espetáculo, que foi criado em 2008 para o projeto paulistano “Pocket Trilhas”, do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

“E consta que o sucesso de bilheteria era enorme. A frequência era muito grande aos cinemas. Atores como Eliana Macedo e Oscarito eram verdadeiramente idolatrados pela população”, diz.

O ponto de partida para a escolha do repertório foram as cenas mais icônicas dos filmes da companhia Atlântida – como a paródia de Brigitte Bardot encenada por Norma Bengell na abertura de O Homem do Sputnik (de Carlos Manga, 1959).

“A gente projeta um trecho daquela cena, que se funde com a música ao vivo, cantada pela Vânia Bastos”, conta Caramuru. “O legal é que, normalmente, a trilha sonora é uma coisa que vem a agregar ao filme. Neste show, a gente faz o contrário. A cena ilustra a trilha sonora. E a música é a cena, porque acontece ao vivo”, explica o diretor artístico.

A canção “Candelária”, de Ruy Rey, originalmente cantada por um Oscarito vestido de rumbeira cubana em Aviso aos Navegantes, é interpretada por Maria Alcina em um dos muitos momentos que dão o tom cômico ao show. Uma das exceções é a canção “Franqueza”, de Oswaldo Guilherme e Denis Brean, do filme Duas Histórias (de Carlos Manga, 1960).

“Os filmes eram principalmente comédias”, lembra Caramuru. “Eles tinham esse humor e essa ingenuidade. E retratavam o Brasil de uma forma muito diferente da de hoje. Naquela época existia um clima de esperança”, explica o diretor artístico. “Este cinema é uma coisa que ficou muito longe de nós. Teve o apogeu nos anos 1950 e ficou esquecido. É interessante resgatar isso.”