Maria Alcina

Coube como uma luva: De normal (bastam os outros) parece ter sido lema de Maria Alcina desde o início. Mas o título – sacada genial de tão clara – é do álbum que comemora as mais de quatro décadas de carreira. Lançado pelo estreante selo Nova Estação, iniciativa do produtor Thiago Marques Luiz, o álbum traz inéditas de Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Karina Buhr, Péricles Cavalcanti e Anastácia.

A data já não é redonda, afinal de contas foi em 1972 que Alcina balançou o país cantando Fio Maravilha. Mas como, mais uma vez de normal bastam os outros, Alcina pode comemorar 41 ou 42 anos de alegria e jovialidade. Do enorme sucesso inicial até as dificuldades impostas pela cruel ditadura militar Alcina sempre se locomoveu. Seja como jurada de TV, abraçando repertório popular na década de 80 ou até descobrindo timbres eletrônicos ao lado da banda Bojo depois da virada do ano 2000.

No novo disco Alcina ganhou de presente retratos musicais, desfilando homenagens na passarela. De Zeca Baleiro vem a deliciosa Eu sou Alcina, “uma sapeca, uma moleca, uma menina” abrindo alas. O desfile segue com Arnaldo Antunes em De normal de onde veio o título e outros estandartes como “É preciso ter coragem”. Fechando o álbum a marchinhaDionísio, Deus do vinho e do prazer de Péricles Cavalcanti resume: “Mas se você quer ser mais direto e natural / Pode me chamar de Carnaval”.

Antenada pescou o Nhem nhem nhem de Totonho, ganhou Cocadinha de sal de Karina Buhr e Fogo da morena, ótimo carimbó de Felipe Cordeiro. Alcina também resgata delícias de Jorge Benjor (Sem vergonha), da dupla João Bosco e Aldir Blanc (O chefão) e Adoniran Barbosa (a incrível Dondoca). O duplo sentido safado, que rendeu sucesso na década de 80, volta na parceria de Anastácia e Liane, Concurso de bicho que – livre – chega a colocar no xaxado o funk carioca. O delicioso encontro com Ney Matogrosso – com quem tem forte sintonia – acontece na deliciosa regravação de Bigorrilho.

Maria Alcina é mineira de Cataguases, cidade da zona da mata onde também nasceu Humberto Mauro, um dos pioneiros do cinema brasileiro. Ainda hoje a cidade respira cultura e vanguarda na literatura, arquitetura, artes plásticas e segue sua história com tendência a abrigar produções cinematográficas. Assim como a cidade Maria Alcina também não vê seu tempo parar.

Como definir uma artista tão inquieta e múltipla? As letras dão umas pistas. Mas Alcina é irresistível, um atentado contra a o estabelecido como normal.

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Matéria publicada em: http://www2.uol.com.br/ziriguidum/1401/maria_alcina.htm