Tom Jobim 20 anos de saudade

Tom Jobim (1927 – 1994)

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Por Fábio Caramuru

Dia 8 de dezembro de 2014 completam-se 20 anos sem a presença física de Tom Jobim entre nós. Nunca é demais lembrar, principalmente às novas gerações, que, com seu talento, Jobim reservou para si um lugar de destaque entre os mais iluminados artistas que o Brasil já teve.

A música brasileira, em seus principais gêneros, ritmos e estilos, recebeu de Jobim um tratamento especial e foi sintetizada com sábia simplicidade em uma ampla série de composições, que habitam de forma indelével o imaginário musical do nosso povo. O compositor foi amigo e parceiro de alguns dos mais notáveis ícones da música brasileira, tais como Radamés Gnattali, Vinicius de Moraes, Elizete Cardoso, João Gilberto, Elis Regina, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa, Baden Powell, Eumir Deodato, entre tantos outros, e também de artistas estrangeiros como Frank Sinatra e Claus Ogerman.

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Baden Powell, Vinicius de Moraes e Tom Jobim nos anos 50.

Jobim teve um reconhecimento internacional tão estrondoso que Ella Fitzgerald, a grande diva do jazz,  fez questão de gravar o disco Ella abraça Jobim.

Frank-Sinatra-&-Tom-Jobim 

Ella-Fitzgerald-Tom-Jobim

Pelo mundo afora, o “Maestro Soberano” é conhecido como um dos criadores da Bossa Nova e da tão decantada Garota de Ipanema. Entretanto, isso representa uma pequena parcela de sua produção musical do final dos anos 50 ao início dos 60, já que nas três décadas seguintes Jobim também criou valsas, choros, boleros, sambas-canções, sambas, modinhas, baiões, toadas e obras sinfônicas.  Além de ser notável na área musical, foi, sobretudo, um ser humano preocupado com o Brasil e com o nosso planeta, no mais amplo sentido.

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Amante dos animais, das florestas e das águas, Tom foi um dos primeiros artistas brasileiros a defender ideias ambientalistas. Criou verdadeiras obras-primas que exalam sintonia e sensibilidade únicas dessa genuína alma artística e consciente das maravilhas e dos problemas do Brasil. Ironizava a especulação imobiliária, idolatrava, ao contrário do senso comum, uma ave tão odiada como o urubu e demostrava uma paixão irrestrita pelo Rio de Janeiro. Isso se reflete em sua produção musical, que evoca não apenas a exuberância e a diversidade do Brasil, mas também transborda, demonstrando uma preocupação muito sincera com a ecologia.

“Eu estou metido com esse negócio de ecologia desde que eu me conheço. Só que eu não sabia que isso se chamava ecologia” (Tom Jobim)

Muito ainda será dito sobre Tom Jobim, que, para mim, será sempre uma das personalidades mais representativas da música de todo o mundo, e a quem venho dedicando os últimos anos de meu trabalho como pianista, pesquisador e produtor cultural. Graças a Jobim, tenho percorrido o Brasil e o mundo com sua música, revelando-a, ao piano, em importantes salas de concerto. Tive o privilégio de coordenar e participar dos projetos: Tom Jobim, 80 anos (2007 – com patrocínio dos Correios), no Centro Cultural Correios, do Rio de Janeiro; Tom Jobim, 20 Anos de Saudade, na Caixa Cultural São Paulo (julho de 2014 – com patrocínio da Caixa Econômica Federal); Brasil em Dois Pianos – Tom Jobim, 20 anos de saudade (novembro de 2014 – com patrocínio dos Correios), em cinco capitais brasileiras, com o partner pianista e arranjador Marco Bernardo.

Gravei o CD duplo Piano – Tom Jobim por Fábio Caramuru (2007); fui solista da Brussels Philharmonic, na Bélgica (2011) e de diversas orquestras aqui no Brasil, levando ao público obras de Tom, em arranjos sinfônicos inéditos (elaborados por Adail Fernandes, Rodrigo Morte e Felipe Senna).

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Tive o prazer de presenciar as irmãs Katia e Marielle Labèque tocarem como bis, na Sala São Paulo, um arranjo para Chovendo na Roseira, que fiz em parceria com Leonardo Martinelli. Por fim, inspirado em Tom Jobim, venho me dedicando ao Projeto EcoMúsica, que consiste em uma série de filmes artísticos e de apresentações temáticas norteadas pela interação entre música, sons e imagens da natureza brasileira. O projeto unirá música, cinema e ecologia, sendo dividido em diversas etapas, ao longo dos próximos anos, e apresentando-se como uma iniciativa cultural fortemente atrelada à revelação dos aspectos da natureza dos diferentes ecossistemas do país (projeto aprovado na Lei Rouanet e no ProAC).

Sou, portanto, extremamente grato ao Jobim, uma vez que sua obra integra de forma consistente e decisiva minha trajetória pessoal e artística. Que sua música continue nos guiando para sempre!

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Fábio Caramuru – pianista e produtor cultural, possui mestrado pela ECA-USP sobre a obra de Tom Jobim. Vem se dedicando ao tema há vinte anos.